CCXP: como o Brasil construiu a maior experiência de cultura pop do mundo
A CCXP 2025 acontece entre 4 e 7 de dezembro. Antes de cruzar os pavilhões, entenda como o evento se consolidou entre os maiores encontros de cultura pop do mundo.
1 de dez. de 2025
A CCXP nasceu como um desejo compartilhado entre frequentadores da San Diego Comic-Con que enxergavam no Brasil um vazio de experiências oficiais dedicadas à cultura pop. Entre viagens aos Estados Unidos para negócios com colecionáveis, cobertura do evento e contatos com editoras e quadrinistas, os sócios começaram a discutir a viabilidade de criar uma Comic-Con brasileira que estivesse à altura do público local.
A sociedade se formou a partir da união de expertises complementares: o Omelete, com suas conexões junto aos estúdios de cinema e TV; a Iron Studios, com relacionamento direto com o mercado de colecionáveis e licenciamento; e a agência de quadrinhos, a Chiaroscuro Studios. Da soma dessas frentes surgiu a CCXP, batizada como Comic-Con Experience justamente para reforçar uma proposta que extrapolasse os moldes tradicionais do formato americano — incorporando vivências que iam além de painéis e estandes.
Desde o início, o plano era oferecer algo que o público brasileiro ainda não tinha: conforto, variedade e escala. Praças de alimentação amplas, corredores largos, experiências nos estandes e auditoriais pensados para criar impacto visual e emocional passaram a diferenciar a CCXP do padrão visto fora do país. A cada edição, estruturas e palcos foram redesenhados para ampliar essa sensação de espetáculo.
O primeiro impacto: quando a dimensão ficou clara

No plano inicial do negócio, projetava-se alcançar 100 mil visitantes em cinco anos. A realidade surpreendeu já na largada. Na abertura das vendas da primeira edição, mais de 13 mil ingressos foram vendidos em apenas uma hora: um indicativo de que a demanda superava as previsões.
O momento simbólico de virada veio ainda naquele primeiro ano, durante a pré-estreia de O Hobbit, com a presença de Richard Armitage. A fila externa formada nas primeiras horas da manhã revelou aos organizadores que a CCXP já havia ultrapassado as expectativas mais ousadas. Era o sinal de que o evento ganhava contornos muito maiores do que o inicialmente imaginado.
Com o passar dos anos, a expansão física acompanhou o crescimento de público e parceiros. A ocupação de pavilhões maiores no Expo São Paulo permitiu ampliar o número de marcas no show floor, criar novos auditórios além do principal e elevar a dimensão dos painéis — transformando o evento em um polo que reúne, ao mesmo tempo, estúdios, talentos, artistas e uma comunidade de fãs em escala inédita no país.
O cuidado como diferencial na relação com talentos e estúdios
Desde a primeira edição, a decisão foi tratar talentos internacionais com um nível de atenção acima do padrão visto em eventos do gênero. Longas viagens, logística complexa e agendas apertadas exigiam soluções que garantissem não apenas eficiência, mas conforto.
Nos primeiros anos, deslocamentos chegaram a ser feitos de helicóptero entre hotéis e o pavilhão. Uma equipe dedicada cuida de hospedagem, alimentação, transporte e agenda individual dos convidados. Dentro do evento, áreas reservadas oferecem refeições completas e atenção contínua aos elencos, criadores e produtores.
Essa forma de operação consolidou uma relação de confiança também com os estúdios. Um dos pontos destacados pelos fundadores é a segurança das apresentações feitas na CCXP: nenhum conteúdo exibido nos painéis vazou ao longo da história do evento. O pedido constante ao público para não registrar materiais exclusivos se mostrou efetivo — um contraste com o que ocorre em feiras internacionais, onde vazamentos são recorrentes.
O resultado foi a construção de um ambiente em que tanto estúdios quanto talentos se sentem confortáveis em apresentar projetos sensíveis ou inéditos ao público brasileiro.
Estrutura e atmosfera: o que diferencia a CCXP da San Diego Comic-Con
Na comparação com San Diego, os fundadores apontam diferenças objetivas. A CCXP oferece pavilhões mais amplos, com corredores largos que facilitam a circulação, uma praça de alimentação diversificada — inexistente no formato californiano — e estandes desenhados para incluir experiências interativas, enquanto muitos espaços da SDCC permanecem limitados a exposições simples.
Há também um aspecto cultural determinante: a reação do público brasileiro. O entusiasmo coletivo transformou painéis em momentos de celebração. Segundo relatos, ao deixar o painel de Guardiões da Galáxia, James Gunn descreveu a sensação de se sentir como um astro de rock diante da vibração da plateia: um tipo de resposta pouco comum em eventos fora do Brasil.
Cosplay: da informalidade à valorização profissional

Um dos pontos centrais da construção da CCXP foi a valorização dos cosplayers. Antes da estrutura montada pelo evento, muitos se preparavam em estacionamentos ou banheiros, sem espaços adequados para troca de figurinos ou guarda de equipamentos.
A organização criou áreas exclusivas com camarins, penteadeiras, banheiros e guarda-volume, garantindo condições dignas para que os fãs caracterizados pudessem circular, participar de concursos e viver plenamente a experiência do evento. Para os sócios, o cosplay representa a expressão mais intensa da paixão pela cultura pop — fãs que literalmente incorporam os personagens durante os dias de evento.
Consumo: quando o fã se transforma em público ativo
A CCXP também se consolidou como um ambiente relevante de consumo de produtos licenciados. Embora não haja um número fechado específico para o volume de vendas em merchandise, a organização trabalha com uma média geral de gastos dentro do evento que varia entre R$ 800 e R$ 1.000 por pessoa, por dia.
A curadoria de lojas e estúdios segue um princípio rígido: somente produtos originais e licenciados são permitidos. Casos de pirataria são prontamente removidos. Essa política fortaleceu o mercado local de consumo geek e estimulou marcas nacionais a criarem linhas exclusivas para o público do evento, como ocorreu com grandes varejistas que passaram a desenvolver selos dedicados à cultura pop.
Para os fundadores, esse ecossistema só se sustenta pelo compromisso com autenticidade: produtos pensados por fãs e para fãs, ofertados em um ambiente que respeita a cadeia de licenciamento.
Avanço internacional e novos horizontes
A marca CCXP já operou edições no México e na Alemanha. O processo de expansão nasceu da observação direta de outros mercados, onde a oferta de eventos muitas vezes não alcança o mesmo padrão de estrutura e cuidado visto no Brasil.
No México, a escolha foi estratégica: proximidade geográfica com Hollywood, facilidade logística para talentos e um público latino tão entusiasmado quanto o brasileiro. Na Alemanha, a experiência revelou diferenças culturais no engajamento do público, mas abriu caminho para uma parceria com a Gamescom, responsável por trazer ao Brasil o maior evento de games do mundo.
Para os próximos passos, a CCXP estuda novos territórios, com atenção especial à Coreia, impulsionada pela força global do K-Pop, dos K-Dramas e da indústria de entretenimento asiática.
Paralelamente, a organização também intensificou o foco na indústria audiovisual brasileira a partir de 2022. Filmes nacionais passaram a ganhar espaço nos painéis e forte repercussão junto ao público — como ocorreu com O Auto da Compadecida 2, que figurou entre os conteúdos de maior recall em pesquisas pós-evento. Em 2025, títulos brasileiros em destaque internacional continuam a integrar a programação, com a proposta de fortalecer a cadeia criativa local e ampliar a presença do Brasil em mercados externos.
Um projeto construído em conjunto com o mercado

Ao longo de 13 anos de trabalho, os fundadores reforçam que a CCXP não foi moldada isoladamente. O crescimento ocorreu em sinergia com estúdios, marcas, varejistas, artistas, produtores, cosplayers e fãs — todos evoluindo em paralelo com o evento.
O que começou como a tradução de uma inspiração internacional tornou-se um projeto capaz de impulsionar a profissionalização de um setor inteiro no Brasil. Mais do que uma feira, a CCXP se consolidou como um ponto de convergência entre entretenimento, produção cultural, consumo criativo e comunidade.
Uma engrenagem construída a muitas mãos — e, sobretudo, movida por quem faz da cultura pop não apenas uma paixão, mas um espaço legítimo de expressão, trabalho e encontro.