Estamos banalizando as palavras?

Por Carmen | Su Misura

14 de out. de 2026

Nada do que vou escrever aqui é exatamente novo. Já encontrei algumas dessas ideias em leituras, conversas e no trabalho de outras pessoas. Também não fui a primeira a pensar que bom gosto vai além de preferência, que acesso não garante repertório ou que uma relação exige mais do que uma apresentação.

Mas conhecer uma ideia e viver de acordo com ela são coisas diferentes. E, quanto mais trabalho com marcas e pessoas, mais essa distância chama minha atenção.

Falamos muito sobre personalidade, originalidade, essência e repertório. Ao mesmo tempo, encontro os mesmos formatos, as mesmas referências e as mesmas maneiras de tentar parecer diferente. Às vezes, tenho a impressão de que falar sobre repertório passou a valer como demonstração de repertório. Como se nomear aquilo que admiramos já fosse suficiente para compreender.

Isso me incomoda, talvez porque sejam palavras que também uso, que participam do meu trabalho e nas quais acredito. Sinto falta de perguntar o que existe por trás delas.

E me incluo nessa pergunta. Estou aqui, afinal, publicando uma reflexão sobre assuntos dos quais outras pessoas já falaram. Qual é o intuito? Expressar algo em que acredito? Divulgar meu trabalho? Ser reconhecida pelo meu olhar? Existe ego nisso?

Provavelmente existe. Não acho que precise fingir o contrário para que o pensamento tenha valor. Mas essa consciência me faz querer entender o que estou oferecendo além de uma imagem de mim mesma.

Enxergar além do próprio gosto

Tenho dificuldade com a ideia de que bom gosto seja apenas relativo. Preferências são pessoais, evidentemente. Mas uma peça pode não fazer parte do meu estilo e ainda revelar qualidade na construção, nas proporções e na execução.

Posso reconhecer valor em algo que não escolheria para mim. Também posso gostar de alguma coisa e perceber suas limitações. Essa distinção exige atenção e disposição para olhar além da identificação imediata.

No trabalho, isso aparece tanto no que escolho quanto no que deixo de fazer. Uma imagem pode ser bonita e não pertencer àquela marca. Uma parceria pode ser interessante e não fazer sentido naquele momento. Gosto também envolve compreender essas relações.

O que fica depois da experiência

Frequentar um café, visitar um museu, viajar ou conhecer determinados nomes pode abrir possibilidades. Compreender o que encontramos pede curiosidade.

O que observamos? O que perguntamos? O que aquela experiência mudou na nossa maneira de perceber as coisas?

Não acho que toda experiência precisa ter uma utilidade ou virar estudo. Há prazer em simplesmente viver. Mas, quando a apresentamos como sinal de repertório, vale perguntar o que ficou dela além do registro.

Meu olhar também vem de coisas próximas: da minha família, das conversas que tive, dos lugares onde cresci e das pessoas que observei. As referências que encontramos fora passam por essa história. Podemos conhecer a mesma obra ou visitar o mesmo lugar e perceber coisas completamente diferentes.

Acredito que o repertório pode ser construído e a sensibilidade pode ser refinada. Ainda assim, há aspectos do olhar que considero difíceis de ensinar: o detalhe que desperta a curiosidade de alguém, as relações que essa pessoa faz, sua maneira de interpretar. Nem tudo consigo reduzir a um método.

Referências que encontram uma história

Gosto de pessoas que bancam quem são. De marcas que procuram suas próprias referências e conseguem sustentar uma identidade, mesmo quando ela não coincide com o que está em evidência.

Isso me interessa e me dá vontade de conhecer mais. Há algo atraente em perceber que um lugar, um produto ou uma maneira de trabalhar tem uma razão para existir daquela forma.

Reconheço essa consistência em exemplos de trabalho e de empresas que acompanho, inclusive entre pessoas próximas. Com o tempo, algumas escolhas se tornam ainda mais claras: aquilo que poderia parecer distante de uma tendência continua fazendo sentido porque pertence à história de quem o construiu.

É claro que existem influências externas. Eu também absorvo ideias, reconheço soluções que gosto e volto a referências que outras pessoas já usaram. Não espero uma originalidade completamente livre de influência.

Mas considero importante buscar esse caminho: investigar o que já existe de próprio antes de recorrer ao que parece funcionar para todos. Uma marca carrega referências na sua origem, nas pessoas, nos materiais e nas experiências que a formaram. Quero conhecer isso e perceber como pode ganhar expressão.

A relação depois da apresentação

Nas relações, a palavra networking me provoca por uma razão parecida. Somos seres interesseiros. É natural nos aproximarmos por admiração, vontade de aprender ou por enxergar uma possibilidade profissional.

A questão está na verdade dessa aproximação. Existe curiosidade pela pessoa? Disposição para ouvir, compartilhar e contribuir? Se a oportunidade não acontecer, a relação ainda importa?

Uma apresentação abre uma porta. O cuidado, a confiança e a continuidade dependem do que fazemos depois. Gosto de relações em que a troca pode acontecer sem que cada gesto fique esperando uma devolução imediata.

Assim como no repertório, chegar perto é apenas o começo.

O que permanece quando o assunto muda

O tempo revela muito dessas coisas. Mostra o que havia além do primeiro encontro, da imagem bem apresentada ou do desejo de participar de determinado universo.

Também gosto de pensar no que acontece quando uma tendência passa. Ainda desejaríamos aquilo se deixasse de aparecer em toda parte? A escolha continua fazendo sentido quando já não recebe tanta validação?

Não estou imune a essas influências. Também descubro coisas pela repetição e sou atravessada pelo que acontece ao meu redor. Mas procuro observar esse desejo. Às vezes ele permanece; em outras, percebo que não era tão meu assim.

Admiro a liberdade de sustentar uma escolha quando o assunto mudou. Essa constância pode construir uma identidade que se torna mais interessante com o tempo.

O sentido de trabalhar sob medida

Buscar uma expressão própria é um dos pontos que orientam meu trabalho na Su Misura. A ideia de trabalhar sob medida vem muito daí: dedicar atenção ao que cada marca carrega e compreender como isso pode participar das suas escolhas.

Minha curiosidade me leva a querer conhecer a história, ouvir as pessoas e descobrir por que determinadas coisas são feitas daquela maneira. É nesse contato que encontro caminhos para a estratégia e a direção criativa.

Quero que as referências ampliem possibilidades e encontrem algo próprio daquela marca. Que a comunicação tenha uma relação com o que ela faz, com quem a constrói e com aquilo que consegue sustentar ao longo do tempo.

Essas reflexões ajudam a explicar o que procuro e o que me interessa no trabalho. São também uma maneira de lembrar a mim mesma de que usar uma palavra pede atenção ao que esperamos que ela represente.

Acredito que essa atenção pode fazer diferença na maneira como construímos uma marca, cultivamos uma relação e escolhemos viver.